domingo, 1 de novembro de 2015

O DIA QUE TENTARAM DOMESTICAR O ROCK'N'ROLL!!!

30 anos do “Tipper Sticker”

Nos idos de 1984, a America careta e conservadora, estava em guerra contra o Rock e em especial o Heavy Metal. Nesse cenário surgiu uma organização/comitê formada por esposas (sem muito conteúdo) de vários políticos, que se aproveitaram do poder para causar uma grande polêmica no meio musical, denominado PMRC (Parents Music Resource Center ou “Centro de Recurso Musical dos Pais”).

A mais ativa e conhecida de suas integrantes foi Tipper Gore, esposa do senador Al Gore (que veio a ser o vice-presidente do governo Clinton entre 1993 a 2001). Outras integrantes destacadas foram Susan Baker, esposa do secretário da economia James Barker; e Nancy Thurmond, esposa do senador Strom Thurmond. O PMRC sustentava que o Rock fazia apologia da violência, consumo de drogas, estupro, suicídio, atividades criminais, etc.; e interpretavam erroneamente as letras de músicas de Heavy Metal para tentar comprovar suas afirmações.

A primeira ação da PMRC foi enviar uma carta, assinada por esposas de políticos e empresários, à RIAA (Recording Industry Association of America), sugerindo que fosse adotado um sistema de classificação para músicas similar ao sistema de classificação de filmes. 
Para pressionar a RIAA, o PMRC publicou no Washington Post a famosa lista das seis exigências de Tipper Gore, sendo elas:
 1.      Imprimir Letras nas capas dos álbuns.
 2.      Manter capas explícitas embaixo das prateleiras.
 3.      Estabelecer um sistema de classificação similar ao dos filmes.
 4.      Estabelecer um sistema de classificação para vídeos.
 5.      Reavaliar o contrato de músicos que empregam violência e conteúdo sexual explícito nos palcos.
 6.     Estabelecer uma vigilância da mídia por cidadãos e gravadoras, pressionando os meios de comunicação a não transmitir obras de “talentos-questionáveis”.

Devido a essas manobras, lojas de departamentos dos EUA como Wal-martJ.C. PenneySears e outras, retiraram de suas prateleiras discos e revistas de Rock. Outra medida hilária do PMRC, foi divulgar uma infame lista de músicas intitulada de “As Quinze Imundas” (Filthy Fifteen List).
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/PMRC
Diante do poder do PMRC, 19 gravadoras aceitaram a idéia de rotular e classificar as músicas de acordo com as sugestões descritas na lista das seis exigências de Tipper, categorizando e censurando livremente o conteúdo dos álbuns. A maioria da classe musical se calou, o que não foi o caso de Frank Zappa (sempre ele), que travou uma batalha hercúlea para reunir outros músicos para compor uma frente contra a censura prévia as obras; porém não obteve muito sucesso.

Não é louvável, ou até mesmo saudável, partir pra briga aberta com uma esposa de senador cotado para a corrida presidencial; sendo assim, somente três músicos, que não tinham nada em comum, resolveram representar toda a classe musical norte-americana, enfrentando os tribunais para salvar o Rock da censura prévia, Frank ZappaJohn Denver e Dee Snider, vocalista do Twisted Sister. Contra eles estava a poderosa associação de esposas de senadores lideradas por Tipper Gore, querendo censurar as canções para proteger os filhos do que elas consideravam letras explícitas demais para a juventude americana.
Devido ao posicionamento destes três senhores, o “Comitê do Senado sobre Comércio” concordou em realizar uma audiência antes que os rótulos fossem colocados. Participaram os representantes da PMRC, os três músicos, e os senadores Paula Hawkins e Al Gore.

A bancada da PMRC esperava que John Denver, músico de Folk Rock, que na época estava em negociações para participar do programa do ônibus espacial da NASA, ficasse do lado deles, mas ele testemunhou contra, dizendo ser “fortemente contra a censura de qualquer tipo em nossa sociedade ou em qualquer lugar do mundo”. O posicionamento de John Denver lhe deu destaque na audição e a sua consequente exclusão do programa espacial da NASAFrank Zappa e Dee Snider defenderam suas músicas e criticaram fortemente a PMRC

Os vídeos originais dos depoimentos podem ser vistos em:

Para ler os depoimentos completos, acesse o link:


O “Tipper Sticker”
No dia 1º de Novembro, de 1985, a RIAA aceitou colocar o adesivo “Parental Advisory: Explicit Lyrics” nos álbuns. Os rótulos eram genéricos, diferente da idéia original de se colocar um rótulo descritivo para categorizar cada tipo de letra explícita. Ficou conhecido como “Tipper Sticker”, que traduzido ficaria aproximadamente como “Adesivo Tipper”, em referência a Tipper Gore. Muitas lojas, notadamente o Wal-Mart, alegando estar protegendo os valores familiares da “Caipilândia”, recusaram-se a vender álbuns que continham o rótulo.

Um fato curioso, e que demonstra toda a estupidez e conhecimento periférico dos envolvidos, foi o álbum vencedor do Grammy Jazz from Hell”, de Frank Zappa, mesmo sendo um álbum completamente instrumental, receber o "Tipper Sticker".

O álbum Frank Zappa Meets The Mothers of Prevention é uma brincadeira com o PMRC e o nome original de sua antiga banda (The Mothers of Invention). Na capa pode-se ler o seguinte texto:

"Este álbum contém material que uma sociedade verdadeiramente livre não teria medo em suprimir. Em algumas áreas socialmente retardadas, fanáticos religiosos e organizações políticas ultraconservadoras violam os seus direitos garantidos na Primeira Emenda, tentando censurar álbuns de Rock’n’roll. Nós percebemos que isto é inconstitucional e antiamericano. Como alternativa a esses programas apoiados pelo governo (projetado para mantê-los dóceis e ignorantes), "Barking Pumpkin" tem o prazer de proporcionar entretenimento digital de áudio estimulante para aqueles de vocês que estão acima da mediocridade. A linguagem e os conceitos aqui contidos são insusceptíveis de causar tormento eterno naquele local aonde o cara com os chifres e tridente pontiagudo conduz seu negócio. Esta garantia é tão real quanto às ameaças dos videofundamentalistas que usam ataques ao Rock em sua tentativa de transformar a América em uma nação de violadores de correspondência idiotas (em nome de Jesus Cristo). Se existe um inferno, seus fogos esperam por eles, não por nós."
Em 2002 o caso virou um filme para a TV, “Warning: Parental Advisory” (no Brasil passou com o título “Proibido Para Menores”), estrelado por Mariel Hemingway (Tipper Gore), Griffin Dunne (Frank Zappa), Tim Guinnee (John Denver) e Dee Snider (que se auto-interpretou). Na ocasião já haviam falecido, Frank Zappa vitimado por um devastador câncer de próstata (4/12/1993) e John Denver devido a um desastre aéreo quando pilotava um avião experimental, feito de fibra de vidro (12/10/1997).

O dia 1º de Novembro de 1985 deve ser lembrado e comemorado exaustivamente, sempre. Esse deveria ser o dia Rock, pois o episódio ficou marcado como uma vitória da música geradora de mentes pensantes e questionadoras, que se opuseram a truculência e arbitrariedade de um bando de pais caretas e conservadores, apoiados pelo governo do país mais poderoso da terra e a indústria do entretenimento, com sua poderosa máquina de propaganda e divulgação. Todos que amam o Rock, a música, as artes e a liberdade de expressão, devem refletir que se não fosse pela coragem desses três senhores, as obras musicais criadas nos últimos 30 anos teriam muito mais intervenção, e o que chegaria aos nossos ouvidos soaria bem diferente.
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Texto autoral de LACARV, publicado originalmente em 01/11/2011

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